Cristãos contra cristãos

Antropocentrismo: O paradoxo da música cristã moderna.

Não é possível louvar a Deus e a si mesmo sem ser blasfemo.

Como músico, tenho comentado minha preocupação com o crescente antropocentrismo na música cristã, desde o início dos anos 2000. Cada vez mais as letras, os componentes sonoros e os artistas convergem para um tipo perigoso de adoração: A auto adoração. Isso mesmo! Não encontro outra palavra que substitua o que ouço nas músicas ditas cristãs modernas, que não passam de um louvor voltado para o eu, cheio de egoísmo e orgulho.

Quero, porém, ressaltar que não sou contra a hinos que fale das nossas lutas nesta terra ou que se apresente em primeira pessoa. O problema existe quando a canção já não é um hino ao Criador e sim, um hino a si mesmo. Mesmo nas capas de alguns álbuns é possível notar o interesse do cantor em aparecer mais que sua mensagem. Cantores precisam definir se são estrelas ou adoradores, pois jamais poderão ser as duas coisas.

Porque a música na igreja é tão importante

Tenho defendido que não deveria haver empresas produtoras de louvor, pois quando a música cristã se torna um produto, ela deixa de servir como instrumento de adoração para servir ao mercado. Seu valor pedagógico será substituído pelo gosto dos “clientes” e não haverá uma margem segura para que esse “produto” não se torne apenas o que ele se propõe a ser; um produto. Vou apresentar apenas algumas razões que permeiam minha defesa.

1- A música cristã deve composta de hinos

A música cristã deve ser composta de hinos(elogios, odes). Isso porque uma música pode ter várias funções. Ela pode ser uma canção de trabalho, como é o caso das canções de lavadeiras, de aboio, de pilão etc. Podem ser recreativas, como o são os cânticos de brincar, como cantigas de roda e parlendas; podem ser culturais, como as canções folclóricas, festivas etc, e podem ser hinos.

O que diferencia o hino das demais canções é que o hino é direcionado a alguém ou a alguma coisa. O termo hino ou ode significa homenagem e, portanto, deve sempre ser um ato de adoração. A própria palavra “música” teve origem no termo grego mousikós, cujo significado é elogio às musas, em uma referência aos poemas cantados em elogio às ninfas.

No caso do cristianismo, o foco é Jesus Cristo. Foi por isso que os primeiros seguidores do mestre de Nazaré ganharam esse apelido. Eles cantavam a Cristo, falavam de Cristo e viviam de acordo com os ensinamentos de Cristo. A divindade é o foco do Cristão e seu louvor deve ser direcionado a Ele, na pessoa plena da divindade, Pai, Filho e Espírito Santo. Qualquer coisa distinta disso não passa de blasfêmia.

3 – As canções comerciais são apropriações de estilos nativos.

Até o final do século XVIII, a música era dividida em música erudita e música folclórica, cantada pelo povo em suas festas e reuniões. As modinhas, ou canções d’amor, originadas dos trovadores, as músicas festivas, os cânticos de trabalho, conviviam com a música erudita. Porém, cada uma com seu público – sem jamais se tocarem. O primeiro sinal de aproximação foi durante a reforma protestante, na Europa, quando Lutero utilizou melodias populares e introduziu letras cristãs. Mesmo assim, o caráter era altamente pedagógico e o escopo era erudito.Isso porque os corais Luteranos cantavam a quatro vozes, o famoso SCTB(Soprano, Contralto, Tenor e Baixo), embora em idioma nativo.

Nos Estados Unidos, as canções de trabalho dos negros, como o blues; o spiritual e o jazz, fundiram-se com o country dando origem a vários estilos, dentre eles o Rock and Roll.

No Brasil, as músicas de matrizes africanas fundiram-se com outros estilos como o shottish alemão, a modinha portuguesa, a habanera espanhola, a quadrilha francesa e a canção alemã(erudita) para formar nossos principais estilos, como samba, forró e suas vertentes, chorinho, boleros etc.

A invenção do fonógrafo e do disco, além do rádio e TV, criaram o ambiente ideal para a comercialização da música em larga escala, gerando artistas, fãs e todo aparato em torno desse processo.

Nesse ambiente foi que se formou o artista como produto e o ouvinte como mercado consumidor, sempre ávido de novidades e disposto a correr milhares de quilômetros em busca dos seus artistas preferidos. É óbvio que para atrair cada vez mais fãs, o artista precisa produzir a imagem de semideus, acima do bem e do mal, uma verdadeira peça de idolatria.

3 – A música Cristã seguiu o mesmo caminho da música popular

Analisando apenas a música brasileira podemos notar um distanciamento do modelo adotado pelos pioneiros cristãos de todas as denominações. Assembleia de Deus, Deus é amor, Batistas, Metodistas e Adventistas começaram suas histórias musicais com músicas tradicionais em seus hinários.

Fora essa ferramenta, cantores missionários, sendo o grupo mais famoso o quarteto Arautos do Rei, cuidavam em propagar a mensagem cristã através da música. Esta, por sua vez, restrita aos templos e programas evangélicos.

Somente nos anos 2000 a música evangélica adotou o termo americano “gospel.” Para se identificar com o maior número de pessoas, rompeu as barreiras dos templos, passando a ser tocadas em rádios e TV’s seculares.

Então surgiram artistas em diversos níveis e muitas produtoras convenceram cantores falidos a cantarem o novo estilo. O que era um nicho virou uma tendência, e o que era uma tendência se transformou em um negócio lucrativo. Desde então, o adorador virou público, o produtor virou empresário, o instrumento de adoração se tornou um produto e o sentido da música cristã se perdeu.

O antropocentrismo tomou a música cristã definitivamente

O resultado foi uma mudança de foco. O antropocentrismo tomou conta dos hinos, pois Deus e suas doutrinas saíram de cena e entrou o eu recheado de mensagens bíblicas vazias. Aliás, amaciam o ego do ouvinte, com mensagens que colocam Deus na posição de Gênio da lâmpada, sempre disposto a atender algum desejo do ouvinte.

O cristão passou a ter apenas direitos e nenhum dever. Nas letras dessas músicas, o servo é servido, a pedra é removida, Deus lhe chama pelo nome. Embora a Bíblia diga que a oração do ímpio é rejeitada, a canção diz que não rejeita a sua oração. Assim, a vitória com sabor de mel soa como um ato arrogante, uma vingança.

Eu sei que sou uma pedra preciosa escondida no meio do barro. Entretanto, mais importante que Deus reconhecer o meu valor é eu me ajoelhar diante dele e adorá-lo.

A música cristã moderninha é um arroubo de autoafirmação, sem um pingo de louvor genuíno. Quando não é um espelho, não do Senhor, mas de si mesmo, abre-se mão da qualidade e insere-se elementos profanos.

Esta música não tem nada de sagrada. É apenas negócio e que a ouve, é apenas consumidor.


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