Aprenda a se defender dos perigos da falsa teologia da prosperidade
Este artigo não é um sermão. Ou seja, não estou a escrevê-lo para que você pregue esta mensagem em sua igreja, a não ser que sejam feitas algumas modificações. Este artigo é um resumo das razões pelas quais eu afirmo que Deus não quer o seu dinheiro. Se você já leu meu artigo sobre os pilares da mordomia cristã ou sobre o dízimo no Novo Testamento, já sabe que eu não sou um anti-dízimo. Tenho argumentado, pela palavra, que o problema está no enfoque de muitos pregadores e não na doutrina em si.
Fé e dinheiro: A origem da Teologia da prosperidade
Somente para situar o leitor, a teologia da prosperidade tal qual conhecemos foi originada nos trabalhos de Essek W. Kenyon, e disseminada por Kennet Hagin, fundador do Movimento Palavra da Fé. Para esses pregadores, a religião consiste em “determinar” no coração uma bênção para torná-la realidade.
Frases como as de Kenyion “o que eu confesso, eu possuo” mostram o caráter superficial desta doutrina. Para um bom entendimento sobre a origem da Teologia da Prosperidade, recomendo o excelente artigo do Dr. Alderi de Souza Matos, publicado na Revista Ultimato online, ligada à igreja Batista. Dos primórdios da doutrina até sua popularização no Brasil foram alguns anos, tendo sofrido adaptações a partir da fundação de igrejas como a Universal do Reino de Deus e suas descendentes.
Um dos pilares da Teologia da Prosperidade é a necessidade de doação de dinheiro para provar a fé. Ou, numa readaptação mais moderna, defende-se que as bênçãos dadas por Deus a uma pessoa são diretamente proporcionais às suas doações. Mas será que esse ensinamento encontra eco nas escrituras? Infelizmente, praticamente todas as denominações cristãs adotaram a teologia da prosperidade em maior ou menor grau. Às vezes, de forma escancarada, como as denominações mais populares, e em outras, de forma velada(nem tanto), como é o caso da IASD, da qual sou membro.
Deus é o dono de tudo
O primeiro argumento contra as ideias defendidas por esses líderes gananciosos, é o que todo cristão sabe: Deus é o dono de tudo. Em Jó 41:11 Deus desafia Jó:
“Quem primeiro me deu alguma coisa, que eu lhe deva pagar? Tudo o que há debaixo dos céus me pertence.“
Embora este seja um dos argumentos dos que exigem dinheiro dos fiéis, ele é exatamente o que lhes condena. Isso porque Deus não precisa de dinheiro, e, portanto, não pode ser subornado. Ensinar que existe um cristão superior porque este entrega dinheiro à igreja é uma falácia, e quem dela usa, mente.
Ninguém pode subornar Deus
Este argumento é a continuação do anterior: Se Deus é o dono de tudo eu não posso comprá-lo. Portanto, qualquer indução à ideia de que uma oferta maior vai trazer uma bênção maior é mentirosa e não tem fundamento bíblico. Um dos textos que os pastores corruptos utilizam é II Cor 9:6-10. Entretanto, o capítulo 9 trata das doações aos santos, uma doutrina muito clara que parece não existir. (Sobre este texto eu já comentei em meu artigo sobre textos bíblicos usados fora do contexto.)
Deus nunca ofereceu riqueza em troca de adoração, seja de que modo isso seja feito. O único momento em que isso ocorre na Bíblia é em Mateus 4, mas quem faz a proposta é o Diabo.
Pré-santuário: O dízimo era uma doação
A Bíblia relata situações em que abraão e Jacó citam o Dízimo. Abraão o entrega de fato, enquanto Jacó aparece fazendo uma promessa. Em ambos os casos, o dízimo é entregue, não para receber uma bênção, mas por tê-la recebido. Jacó faz o pacto para demonstrar gratidão a Deus e não para pagá-lo. O dízimo, nestes casos, eram doações voluntárias e não um imposto, muito menos um suborno. Não há qualquer indício que aponte o contrário.
Durante a vigência do Santuário: Dízimo era um imposto.
Após a construção do santuário e a instauração dos serviços sacrificais, o dízimo passou a ser um imposto. Os levitas recebiam o dízimo como herança, já que não receberam terra para cultivar. Neste período, deixar de entregar o dízimo era sonegação ou roubo, já que o caráter do mesmo era estatal. É neste contexto que se encontra Joel 2 e Malaquias 2 e 3. Enquanto nação, o dízimo era sinônimo de proteção contra pragas(o devorador de Malaquias era uma referência a insetos), abundância de colheitas e coisas semelhantes, já que a relação era de vassalagem.
O dízimo na igreja Cristã
Assim como nos dias de Abraão e Jacó, o dízimo voltou a ser uma doação tão logo o véu do templo rasgou-se. O sistema sacerdotal perdeu seu valor e com ele foi-se o imposto do dízimo. Portanto, o novo testamento não faz qualquer menção a este imposto, exceto quando Jesus critica os sacerdotes por serem fiéis no dízimo e ignorarem os outros preceitos da lei. Porém, neste episódio, Jesus coloca o dízimo como sendo tão importante quanto os demais preceitos da lei.
Este assunto jamais será retomado no NT. Paulo faz referência ao sistema sacerdotal judaico do dízimo em I cor 9 e é provável que o apóstolo esteja reconhecendo o dízimo como válido entre os cristãos. Neste caso, vale o mesmo princípio de Jesus, de que toda lei deve ser observada e não somente a prática do dízimo. Infelizmente, o interesse dos líderes religiosos em “provar” a necessidade da entrega do dízimo na atualidade é tão desproporcional que eles trocam a dedução pela indução sem qualquer escrúpulo.
Consequência e não causa
Uma igreja não é fiel porque doa muito. Ela doa mais quando alcança um grau maior de fidelidade. Convencer os irmãos a doarem dízimo por medo é se valer do mesmo argumento utilizado por Johann Tetzel, o padre que vendia indulgência na idade média. E é isso que Deus não quer, pois assim como fez Abraão, a entrega do dízimo deve ser um ato de gratidão e nunca um ato forçado.
O líder deve ensinar por preceito e exemplo o valor da fidelidade. Não basta pregar sobre dinheiro, é preciso compreensão do valor da verdadeira adoração e a partir daí aguardar o crescimento da igreja.
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